Monday, October 30, 2006

04/07/2002

Ah mamãe! Que saudade estou sentindo...! Eu pensei que não iria sentir tanto assim apenas por ser espírita, e sabendo que a senhora, estando vivendo no mundo dos espíritos, tudo estaria bem, mas não está sendo tão fácil como pensava...!

Lembro-me da senhora aos domingos, quando ia embora para casa, sempre indo se despedir da gente na porta da sala; com dor ou sem dor. “Eu gosto muito de você viu Tarcizio, meu filho mais velho...!” E querendo me abraçar, se achegava a mim, com aquele seu jeito que está me matando de saudade. Lembro-me cada vez mais da senhora, nem sei o porque disso. Deve ser por que nunca fui um filho nada carinhoso e agora a “ficha caiu” trinta e dois dias depois que você foi pra aí. Na penúltima semana antes dos acontecimentos, eu disse que a senhora estava exalando remédio e o seu olhar para mim inexpressivo como se quisesse dizer algo, ficou ali, porque a senhora calou e de olhos baixo, apenas sussurrou: “tomei quatro comprimidos e a minha dor de cabeça não passa”.

Quando fui dormir ontem, comecei a sentir essa saudade de não poder, neste mundo, vê-la com seus reclames de dor...! Ah mãe é tão ruim ser sem mãe, é triste mãe!

É a primeira vez depois que se foi, que estou assim, me lembrando de tudo e chorando que nem um menino. Quando me lembro que naquele dia que estávamos indo para o sítio e a senhora querendo sair do carro e eu preocupado com os cintos de segurança, a senhora levou um tombo porque tropeçou neles, machucando os joelhos. Ai que dor me dá ao lembrar disto mamãe!

“Agora é hora de rezar, boa noite pra vocês, Deus os abençoe! Eu rezo todas as noites para o Tarcizio, Aloysio, Heloisa, Vânia e Wander, para os filhos e netos...! Assim:...!” E começava a explicar como rezava, citando os nomes de todos. Esse seu carinho conosco era impecável. E eu não dava valor ao seu amor...! E agora choro por uma coisa que não tem mais volta. Passou!

Mamãe a senhora estava tão bem...! Só reclamava das dores o que já era um fato comum entre todos que a conhecia e de repente foi assim sem dar tempo da gente se preparar, quando eu vi a senhora já estava cega e nem se comunicava direito. O que aconteceu? Me explica mamãe. Agora fico vendo a senhora no “santinho” de missa de sétimo dia! Dói...!
Quando eu entro lá em casa; vejo agora como a senhora era importante, a rainha do lar mesmo. A casa está vazia, seu quarto então, perdeu aquela aura de quarto de mãe, está seco, sem a vida que ninguém via que tinha com a sua presença. Agora eu entro lá, olho para o lado da cama que sempre foi seu...! Ta tão vazio, vazio de mais mãe!

Estou escrevendo e chorando, será que a senhora está aqui em casa? Hoje é a primeira vez que choro assim de tanta saudade, nem no dia que se foi senti tanto como hoje. 04/07/2002.
Peço todas as noites “notícias sua” aos bons espíritos, peço para quando minha alma ao dormir vá ao seu encontro, se já aconteceu algum eu não me lembro. Só um sonho sem nexo neste tempo: “sonhei que a senhora dirigia a Caravan” [?!]

Mas hoje, desde que fui dormir às 03:00 horas, a senhora não me saí da cabeça e eu não paro de relembrar o passado, Manhuaçu, Av. Carandaí, a senhora com aquela bandeirinha do Brasil, no apartamento da Aimorés, lá de cima acenando para quem chegasse, torcendo para a seleção! Essas imagens estão vindo em minha mente sem parar. O que está acontecendo?
Quer dizer alguma coisa, mamãe? – Fala...

Ta faltando poucos dias para o Natal, o primeiro que passo em minha vida sem a presença de minha mãe, dia 2 desse mês fez seis meses que ela foi viver no mundo espiritual, dimensão invisível, para muitos subjetiva, quase irreal. Mas que para mim, é logo ali. Só que não vejo, sinto apenas. Nem por isso deixo de lembrar dela, por mais esforço que eu faça, a presença física daquela figura meiga é inevitável nessa ocasião.

Desde menino, junto com mais quatro irmãos essa época de Natal nos foi incutida por mamãe, como algo mágico que só acontece na noite do dia 25. Sempre no início do mês de dezembro éramos convocados para fazer um presépio, que era grande, ocupava quase que a metade de um quarto, com o tempo e com as mudanças de casa para apartamentos o presépio deu lugar a uma grande árvore e a sala, toda decorada com enfeites natalinos, era uma coisa que a deixava alegre, feliz da vida. Mamãe era mesmo uma mulher “descomplicada”, simplesmente “Dona de Casa” e não tinha outras ambições na vida.

Sempre, antes da meia noite ela entregava uma vela e um roteiro escrito por ela mesma e datilografado por papai, a cada filho, genro ou nora, netos e netas, namorados e namoradas, amigos que participavam e inclusive as empregadas da casa, participavam. Então, Quando tivesse faltando três minutos para meia noite, ela iniciava cantando “Noite Feliz” e todos nós acompanhavam-na até que, ao som do relógio de parede escutávamos atentamente o início das 12 pancadinhas, todos falavam juntos “Feliz Natal!” ao mesmo tempo trocávamos abraços com todos os presentes. Depois mamãe dizia assim: “Entre Jesus, abençoe minha família e todos que aqui estão, sinta a alegria em nossos corações pela comemoração que estamos fazendo ao Seu nascimento”. Iniciava um “Pai Nosso” que era então, seguido por nós que finalizávamos aquela pequena cerimônia.

Esse ano, não terá minha mãe, postada ali na porta da sala, convidando Jesus a entrar. Mas, faremos tudo igual, sei que ela estará presente nos observando com seu olhar e se por acaso chorarmos, sei também que ela entenderá nossas emoções, pois será a primeira vez que faremos a cerimônia que ela criou para homenagear o Menino Jesus, tenho certeza que seu roteiro ainda será por muitos anos lido por todos nós, é uma forma que achamos de mantê-la viva em nossos corações.

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

O tempo nos deixa marcas no rosto, mas também suaviza as perdas, transformando-as em saudade. Doída, a princípio, mas depois cada vez mais suave...
Sua mãe, lá no Azul, deve estar feliz ao ver que continua sendo lembrada por você.
(Bianca)

Tue Nov 14, 06:46:00 PM  

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